25 de setembro de 2016

Flertando com o precipício

Sempre flertei com o precipício a uma distância segura, com os pés firmes na terra...
Olhava para o altura da queda e me contentava em apenas imaginar as sensações de me jogar.
E toda a minha história poderia ser resumida nisso...todas as escolhas e passos sempre me levam em um lugar protegido de todas as sensações intensas e descabidas.
Existem suas compensações...a vida passa lentamente pelos olhos e posso contar nos dedos da minha mão os "frios na barriga" que senti.
Como uma grande diretora da história da minha vida, controlo as cenas, as falas e as pausas. É tudo ensolarado, como uma tarde tranquila a beira mar, com o reflexo do pôr-do-sol nas minhas costas, iluminando com dourado meio mel...e que depois de quinze minutos fica entediantemente chato, morno, como o sol que nos aquecia mais cedo.
Mas um dia me descuidei da direção da minha história, e esbarrei em você como quem se choca com um trem em alta velocidade.
Num lampejo estranho meu corpo gritou pelo seu nome em público. O que terá sido aquilo?
Repasso imediatamente todas as minhas falas e cenas futuras e constato que seu personagem não estava previsto - improviso? Já não tenho mais controle.
Quem sabe seja essa uma história contada não apenas por mim, ou será que perdi essa parte? Quem terá encontrado? Quem está me pregando essa peça?
Depois de um tempo e de tentativas sem sucesso de retornar ao roteiro original... percebo....é o precipício, que me chama com um canto hipnótico...que me conduz a sua beira e diz..."se jogar é o pulsar da vida" é só ali nesses milésimos de segunda de queda, que reside a vida.
Olho bem no fundo dos seus olhos, e te entrego tudo, tudo que me veste o corpo e a alma, me dispo para um queda mais suave.
Mas você tem dores, como as minhas, e tem cores desenhadas no seu corpo, algumas incompletas, como as minhas letras e canções que nunca cantei a ninguém.
Eu não sei exatamente porque, mas me jogo, com os olhos bem fechados, com medo, e quando eu olho para cima, percebo que pulei sozinha.
Antes que o meus pés toquem por completo o chão, sou violentamente arremessada de volta, passo por você numa propulsão para o alto, e você permanece ali, parado, no mesmo e triste lugar, amarrado pelas suas promessas de não entrega.
Passo de novo por você, indo em direção ao chão e retorno, como uma roda-gigante de sensações, que eu nem sei quando vai parar. Vou conseguir escapar? Voltar ao ponto seguro e fora do precipício?
Mesmo que eu consiga aterrissar, serão inevitáveis escoriações e cicatrizes de uma queda de do meu morno lugar rumo ao desconhecido universo do querer...que agradeço por poder viver.




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